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Amor, desejo e falta: o lugar do ciúme

  • Foto do escritor: Juliana Prado
    Juliana Prado
  • 9 de set. de 2025
  • 2 min de leitura


Hoje, vivemos um tempo em que sentir ciúme parece fora de moda. A cultura atual valoriza relações livres, nas quais a ausência de ciúme se apresenta como sinal de maturidade emocional e autonomia. Mas, por trás desse ideal, existe também uma lógica narcísica: buscamos um amor sem ameaças, sem disputas e sem sofrimento, como se fosse possível apagar a falta e a diferença que fazem parte de toda relação amorosa.

Na clínica, no entanto, vemos outra realidade. O ciúme não desapareceu, ele retorna, muitas vezes de forma intensa e patológica, no delírio, na violência, na melancolia e até no masoquismo, revelando um romantismo recalcado que insiste em reaparecer. Ao mesmo tempo em que o discurso social estimula o “amor livre”, vemos uma dificuldade crescente em lidar com a liberdade e a individualidade do outro. Queremos um amor ideal, mas também descartável; desejamos um vínculo profundo, mas não suportamos o desconforto que o amor real provoca.

O amor tem data de validade, vivemos entre dois polos: de um lado, o desejo de um amor romântico, exclusivo e seguro; do outro, a lógica de consumo que transforma os vínculos em produtos, prontos para serem trocados quando não correspondem às expectativas. Nesse cenário, o ciúme passa a ser visto como inadequado, um sinal de fragilidade emocional, quando, na verdade, sua ausência completa pode revelar outra forma de impasse.

A psicanálise nos lembra que o ciúme tem uma função: ele aponta para o lugar da falta, do desejo e da diferença. Quando tentamos suprimi-lo em nome de um ideal de completude, corremos o risco de criar relações superficiais, baseadas na fantasia de que o outro nunca nos faltará. Ao mesmo tempo, quando o ciúme explode de forma desmedida, ele denuncia o oposto: um apego a um modelo idealizado e impossível de amor. Em ambos os casos, o sofrimento aparece, seja na tentativa de negar, seja na repetição inconsciente dos mesmos padrões.

Podemos escutar o que o ciúme diz sobre nós. O ciúme revela nossas inseguranças, nossos medos e os roteiros afetivos que insistimos em repetir, mesmo quando acreditamos que estamos vivendo algo novo. Entender o que ele expressa pode abrir espaço para relações mais autênticas, menos baseadas na fantasia de controle e mais próximas da realidade do desejo.

 
 
 

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